2015

02.01.2015
Minha querida,

Tá bom, já sei que vocês elegeram a cor marsala como o tom de 2015. Um tom de vermelho bem escuro, quase vinho. Reconheço a imponência da cor e principalmente sua representatividade na história da indumentária e da moda. No que se refere ao valor simbólico o vermelho escuro é noturno, secreto, centrípeto: representa não a expressão, mas o mistério da vida. Nas lâminas do Tarô, o Eremita, a Papisa e a Imperatriz usam uma toga vermelha escura sob uma capa ou um manto azul: todos os três, em graus diversos, representam a ciência secreta.
No entanto, querida Pantone, definitivamente, mistério não é o que desejo, em 2015, para mim. Por isso, marsala, vou pular você.
Ironicamente, vou lhe confessar que elejo para o meu guarda-roupa/corpo/alma de 2015 uma não-cor. Sim, sim, o branco. Mas explico.
Primeiro, pois o branco representa a soma das cores, e desejo tudo colorido para este ano que se inicia. Nada de monocromia.
Segundo – e talvez o mais eminente desejo – quero o valor simbólico do branco da alvorada. Pois assim como Kandinsky, acredito que o branco produz sobre nossa alma o mesmo efeito do silêncio absoluto, esse silêncio que não está morto, pois transborda de possibilidades vivas… É um nada, pleno de alegria juvenil, ou melhor, um nada anterior a todo nascimento, anterior a todo começo.
É nesse momento do vazio total entre a noite e o dia, quando o mundo onírico recobre ainda toda a realidade: ali está o ser interdito, suspenso numa brancura côncava e passiva.
Quero esse branco, o branco que antecede ao começo das realizações dos sonhos, que nem sempre é brando, não, não, também é de batalha.
Por isso também quero o branco do grupo social militante Tute Bianche, que de 1994 a 2001, se revestiram de ternos brancos recheados de espumas e caminharam pelas ruas da Itália lutando por seus ideais. Denominavam-se de exército de sonhadores cuja arma era o próprio corpo. A cor branca usada por eles evoca o grupo militante “Ya Basta association” que vestiam branco para rememorar os fantasmas que assombravam a também fantasma cidade dos policiais. O grupo proliferava que se a luta visa à realização de visibilidade, a cor da luta é o branco, e a peça de vestuário branco cobre todo o corpo.
Neste sentido, querida Pantone, vou querer o seu branco do amanhecer para cobrir o meu corpo e cada projeto que se inicia. Assim como o branco que representa todo o seu espectro de cor. Pois para 365 dias é preciso muita luz.