Feliz dia dos namorados

Esta semana, pesquisando para um trabalho no MBA, encontrei este vídeo lindo e muito propício para o dia de hoje.

Aperte o play……

e Feliz dia dos namorados.

 Beijos,

Luisa Mendes

A teoria das nuvens

Às vezes, até pensa, mas sem dizer a ninguém, que o cérebro dos homens tem a forma das nuvens, e assim as nuvens são como a sede do pensamento do céu. Às vezes, Goethe até sonha que o próprio pensamento se desenvolve não, como dizem alguns, à maneira de um edifício de pedras, mas como essas arborescências nebulosas que tanto admira, nos céus sempre renovados de Weimar. Às vezes, mesmo assim, permanece paralisado, assustado com suas instituições malucas; abstém-se de confiá-las à pluma e ao papel; muito menos ao tipógrafo. Esses pensamentos são suas prostitutas.

Trecho do livro A Teoria das Nuvens, de Stéphane Audeguy.

Hoje, estou me sentindo como Goethe.

Beijos, Luisa Mendes

Não é ABRACADABRA

ABRACADABRA

ABRACADABR

ABRACADAB

ABRACAD

ABRAC

ABRA

ABR

AB

A

Esta fórmula foi utilizada durante toda a idade média tal como amuletos, talismãs e pentáculos. Desenhada como um funil, correndo enviesadas da parte alta alargada para a parte baixa que se estreita, formam as linhas de força de um poderoso turbilhão. Acreditava-se que quando utilizada, colocava o homem em harmonia com as leis misteriosas que regem o mundo, e em relação com poderes superiores.

Hoje, o que coloca o homem em um solo fértil e conectado com essas diversas leis, são as articulações que fazemos, com nós mesmos e com o outro.

A articulação é um dos símbolos da comunicação, o caminho através do qual a vida se manifesta e passa. Dicionário de símbolos

Se pensarmos pelo prisma do Fio de Prumo, importante elemento da maçonaria, que na maioria das vezes é designado pela palavra perpendicular, esta articulação é a flexível representação da verticalidade.

Pensando no contexto dos vestíveis, ando muito encantada com as “novas” possibilidades da verticalidade, ou diria, ascensão de novas técnicas de se fazer roupas e acessórios: uso de  impressora 3d que imprime desenvolvimentos em TPU.

TPU é um Poliuretano Termoplástico que apresenta em suas propriedades: elasticidade, transparência e resistência à óleos, graxas e abrasão.  É o material utilizado na composição de tacos de golfe.

Já na indústria da Moda, o TPU não é tão novo assim. Na coleção Blindados de Luiza, verão 2011 da marca Luiza Barcelos, saltos foram feitos utilizando este material. Só não foram produzidos por meio de uma impressora 3d, o que hoje seria possível. Processo que vivenciei de perto, pois neste momento eu era assistente de estilo da marca.

O que percorremos e produzimos não é direcionado por nenhum ABRACADABRA, e sim por pesquisas, testes e o constante exercício da escuta, pois às vezes a matéria prima está ao nosso alcance e não enxergamos.

Sobre a impressora 3d, não acredito que esta tecnologia vá eliminar o fazer manual.  A preciosidade e enredos narrados pela mão de uma costureira é particular à este ofício. Ao mesmo tempo que novas possibilidades podem se somar aos nossos costumes.

De todo modo, leio o caminhar em conjunto dos designers e cientistas, como o conceito do Fio de Prumo: a soma de sentidos que permite agir em função de realidades às vezes invisíveis para um só.

Beijos,

Luisa Mendes

 

O que me faz escrever

A última vez que pensei sobre o futuro foi quando eu tinha dez anos. Eu estava no carro com minha avó, que dirigia uma Cadillac. Ouvimos uma voz no rádio anunciando que o mundo iria acabar dentro de um ano. Era um programa religioso. O cara, um pastor sulista, parecia bastante convincente. Então perguntei à minha avó se aquilo era mesmo verdade. Ela disse: “Vamos rezar”. Ela estacionou o carro e começamos a rezar! Eu me lembro muito bem disso porque nós paramos perto de um daqueles motéis de beira de estrada que eram populares no Meio-Oeste nos anos 50. Ficamos o ano inteiro rezando, lendo a bíblia e avisando todos os parentes e amigos sobre O FIM. No dia previsto, um ano depois, nada aconteceu. Fiquei desapontada. Essa foi a última vez que tentei prever ou acreditar em qualquer coisa que alguém tivesse a dizer sobre o futuro.

Entrevista concedida por Laurie Anderson à Rodrigo Garcia Lopes.

Laurie, também comenta sobre como temos a impressão de que as coisas no futuro, se não vão ser melhores, pelo menos serão mais novas e mais “ordeiras”. E que precisamos ficar atentos a esses termos, e o que eles significam.

Pensar no presente e futuro é um pouco complicado, a meu ver. Não sei como delimitar o que já não é mais presente, só penso como um movimento uniforme, que induz a uma rotação.

É comparável, sob este aspecto, ao simbolismo Lunar – as filhas da Necessidade – as Parcas, cantam como sereias, fazendo girar os fusos: Láquesis (o passado), o Cloto (o presente), Átropos (o futuro). Elas regulam a vida de todo ser vivo com o auxílio de um fio; que a primeira fia, a outra enrola e a terceira corta.

Penso que talvez este seja o impulso que me faz escrever neste blog: registrar o que no “presente” momento me encanta no universo e poder no “futuro” desmentir ou afirmar conceitos que eu havia pré- estabelecido.

Tenho aprendido a usar a escrita como forma de cultivar o meu aprendizado, o olhar sobre as coisas, aquilo que me toca, seduz, encanta, incomoda, como uma maneira de exercitar a minha consciência e os limites impostos por ela. De toda maneira, isso se espelha no meu trabalho.

Mais do que pretender dizer o sentido, trata-se de estabelecer relações de vizinhanças ou deslocamentos que é dado de pronto. Assim como nos diz Barnett Newman:

Eu sempre achei que meu trabalho, num certo sentido, é parte desse processo e que, eventualmente, o próprio objetivo artístico irá desaparecer, se tornará bastante ordinário, ou irá virar apenas uma infinita corrente de palavras.

Fotos da coleção Pollock and Gehry (fotógrafas Ignez a Márcia Capovilla)

Beijos,

Luisa Mendes

O universo invisível da nanotecnologia

Em 1964, o arquiteto Britânico Ron Herron apresentou em um artigo de arquitetura o que chamou de THE WALKING CITY.  Eram edifícios com estruturas robóticas móveis, e com inteligência própria, que poderiam se movimentar livremente, rodando o mundo. Várias “walking cities” poderiam se conectar formando “walking metropolises”. Com o intuito de homenagear o arquiteto Ron Herron, em 2006, a designer de moda Ying Gao criou projeto homônimo com três vestidos interativos: cotton, nylon e dispositivos eletrônicos.

O ar é o elemento fundamental do projeto de Gao. Estes vestidos interativos jogam com a percepção do público: o fluido movimento do ato de respirar é simulado pelo uso de sensores e um mecanismo de pneumática (aplicação de gás sob pressão para produzir movimento mecânico), que semea diretamente no nylon e no cotton, tomando uma dimensão lúdica através de sua capacidade inflável.  Estas peças são mais difíceis de entender do que vestidos convencionais, quase enganando o público para enxergá-los da forma que eles realmente são.

walking city, interactive dress 1 from ying gao on Vimeo.walking city, interactive dress 2 from ying gao on Vimeo.walking city, interactive dress 3 from ying gao on Vimeo.

Luz, imaterial, mudança e poética, este é o conceito das peças infláveis que dão vida às roupas, com seus movimentos mecânicos dando a impressão de que eles são controlados por um corpo. Ying Gao

De fato, o universo invisível da nanotecnologia, através de uma apresentação poética e metafórica têm impactado a cultura e a consciência humana, vide projetos já relatados neste blog: The Aphrodite e Catalytic Clothing. Diante desse substrato e de outros trabalhos de nanociência, acredito que a moda pode caminhar no sentido de problematizar e explorar novas matrizes que há muito tempo já não é um domínio exclusivo da ficção, tendendo a cada vez mais ser uma nova linguagem de expressão, de agregação de sentidos e de sensibilidade. 

Beijos,

Luisa Mendes  

 

Knotted tassels: funcionalidade e ornamento

Semana passada, participei de um curso com Katia Johansen, conservadora textil e curadora do Royal Danish Collections, sobre Museologia da Moda, Instituto Zuzu Angel. Johansen falou um pouco sobre a indumentária na Dinamarca, como eles reconstroem e preservam as peças com o intuito de pesquisar o seu processo.

Katia explicou sobre os “Knotted tassels”- adorno, característico do século XVII, usado no pescoço cujo acabamento final era feito por nó – e mostrou como eles foram reproduzidos e continuam presentes, fazendo um paralelo com os headphones atuais.

este slide foi apresentado por Katia Johansen

Confesso que fiquei apaixonada por esta aproximação e quando retornei do curso, fui em busca no meu arquivo de dados, de referências e imagens que validam o uso de headphones como um elemento do vestuário: unindo funcionalidade e ornamento.

Os “Knotted tassels”, assim como os headphones, apresentam aspecto de uma corda. Suas extremidades agem como alfa e ômega, princípio e fim.

Não é de se estranhar que os “tassels” adornam justamente o pescoço: local do corpo humano em que se localiza a alma animal do homem, que condiciona o seu temperamento. É a partir desta perspectiva que os índios guaranis apapocuvas do Brasil, transpõem para o pescoço a comunicação entre a alma e o corpo.

Visando ilustrar este aspecto, digo que se os “Knotted tassels” atribuíram novos sentidos aos headphones, hoje eles abrigam um elemento agregador ao adorno: a música.

Para Boécio, a música rege o homem e o apreende – supõe um acordo entre alma e corpo.

Ei-la que se aproxima da orelha,

Como se fosse falar, beijando

Seu querido amante,

É a corda: esticada no arco, ela vibra

Como uma donzela, salvadora, na batalha.

( Rig-Veda, 6, 75)

 

Beijos,

Luisa Mendes

Decantando

Esta semana tenho feito o constante exercício da escuta.

Mais não é qualquer escuta.

Katia Johansen, textile conservator/curator da Royal Danish Collections, está ministrando o curso de capacitação em Museologia da Moda, aqui no Rio de Janeiro/Instituto Zuzu Angel. O aprendizado tem sido grande, e o que sinto é que preciso decantar um pouco todo o conteúdo das aulas.

Assim, nos reencontramos na próxima quarta-feira.

Ah, este já é um slide apresentado pela Katia.

Beijos,

Luisa Mendes

 

Multiplicidade infinita

Os Khmers, grupo étnico majoritário do atual estado do Camboja, acreditavam que os peixes eram impuros por mergulhar nas águas mais contaminadas do mundo subterrâneo.

O hagfish, também conhecido como peixe-bruxa, é um destes peixes que nadam em águas muito profundas, com baixa visibilidade, sempre procurando por restos de baleias mortas.

No contexto simbólico dos Khmers, o Hagfish é um peixe impuro.

Longe deste cenário, na Universidade de Guelph/Canadá, cientistas começam a olhar com mais atenção para estes peixes e percebem nos hagfish, potencial para gerar fonte natural e renovável para a produção de tecidos. Esta leitura se deve às substâncias contidas no muco produzido pelo peixe-bruxa em situações de autodefesa.

Quando o hagfish se sente ameaçado, eles disparam na água do mar uma substância leitosa que se expande, criando grande quantidade de um muco translúcido, composto por fibras extremamente fortes e elásticas. Estas fibras quando secas, se tornam sedosas.

No momento em que um tubarão morde um peixe-bruxa, sua boca e guelras são rapidamente cobertas pelo muco e imediatamente desistem do ataque para não morrer asfixiado.


Devido a sua composição e aspecto elástico e sedoso, pesquisadores acreditam que o muco do hagfish pode ser transformado em roupas esportivas ou, ainda, em coletes de proteção contra armas.
Esta pesquisa está em andamento, cientistas esperam reproduzir artificialmente as proteínas que são encontradas no muco do hagfish. A meu ver, será um avanço encontrar alternativas para substituir as fibras sintéticas que são produzidas por meio de fonte não renovável, como o petróleo.

Desculpem os Khmers, mas como acredito no simbolismo do peixe como nascimento ou restauração cíclica, nesta configuração, o peixe-bruxa é a multiplicidade e diversidade infinita do universo sensível, convertida em realidade tangível.

Estabelecida nesta perspectiva, eu aguardo novos resultados com o intuito de testar e usar esta matéria prima em muitas produções.

Beijos,

Luisa Mendes

Potencial de sentido

Durante o processo de criação de peças do vestuário, a percepção de uma nova ordem e de novas relações me direcionam sempre para as costas.  Isso mesmo, começo sempre pela parte de trás da roupa, pela coluna vertebral.

Lendo alguns textos de Flávio de Carvalho publicados no Diário de São Paulo no ano de 1956, na sua coluna “Casa, homem, paisagem”, começo a perceber um sentido nesta minha ordem de criação.

Para Flávio, tudo se inicia por meio do desejo de equilíbrio:

é só pensarmos em Barylamba, mamífero que nasceu da árvore-refúgio há 75 milhões de anos no Paleoceno. Após o desaparecimento dos terríveis dinossauros, a fim de tomar conta da terra junto com outros mamíferos nas mesmas condições, Barylamba desenvolve uma longa cauda, que funciona como um tripé: contrapeso para o equilíbrio e fornecendo segurança na locomoção.

Esta busca de equilíbrio é pertinente na composição do traje e apesar de ter perdido a sua cauda há cerca de cem milhões de anos atrás, o homem, ainda hoje, busca um substituto de pano.

A imperatriz Josefina com sua longa cauda ajudava a equilibrar a insegurança de Napoleão, palavras de Flávio de Carvalho.

A cauda, apesar de não visível externamente, se encontra de fato presente no homem e no macaco antropomórfico e é construída pelos mesmos moldes em ambos. Darwin, Descent of Man.

De fato, a cauda se manifesta na indumentária em vários momentos históricos e se visualizarmos os desfiles atuais, esta mimetização se perpetua.

Tal como interpreta Flávio de Carvalho e eu a interpreto, a “cauda” é o nosso tripé, equilíbrio, eixo, coluna vertebral, no sentido lato do termo. Também entendo de maneira dialógica, que ao sabor da evolução humana, não há maneira mais absoluta do que o espírito da roupa: ela contém um potencial de sentido.

Beijos,

Luisa Mendes 

Roupas que purificam o ar

Considerado um dos quatro elementos, o ar representa a vida invisível, é o meio próprio da luz, do alçar voo, da cor e do perfume.

O ar é um purificador.

Ou, deveria ser.

No momento, as duas maiores fontes de poluentes atmosféricos são transmitidas por veículos da indústria e do motor. Pensando nisso, Helen Storey, artista e designer, se juntou com Tony Ryan, cientista, para pesquisar e encontrar uma solução para purificar o ar por meio das roupas que usamos.

Eles criaram o projeto CATALYTIC CLOTHING.

Funciona desta forma: durante o processo de lavagem de nossas roupas, adicionamos um catalisador, à medida que nos movemos este fotocatalisador ganha energia por meio da luz, assim os elétrons são reorganizados, tornando-se reativos. Estes elétrons reagem com a água do ar e quebram-se em radicais que reagem com poluentes atmosféricos, fazendo com que estes se dividam em não nocivos químicos.

The Catalytic Clothing Story from Helen Storey Foundation on Vimeo.

Helen e Tony já realizaram testes com o cotton e o denim, e se tudo ocorrer como o planejado, em dois anos este material estará acessível para todos nós.

Se pensarmos de acordo com a tradição Islã, que o tear simboliza a estrutura e o movimento do universo, concluiremos que a nanotecnologia aplicada à tecelagem pode ser um caminho para a mudança do nosso ecossistema.

Tudo se passa como se a tecelagem traduzisse em linguagem simples uma anatomia misteriosa do homem.

Beijos,

Luisa Mendes