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Mais leve

No mesmo instante em que revi a imagem da obra “Escorredor de garrafas” ,  ready-made de Marcel Duchamp, 1914, a mesma se prendeu em minha mente provocando uma confluência com as crinolinas do final do século XIX.

O estudo da confluência se prende a conjunção e coincidência dos opostos. Diferenciação no que tange a utilidade de cada qual quando pensamos nos mesmos como objeto e acessório vestível, respectivamente. Mas, na minha cabeça, ocorre a volta à unidade depois da separação,  síntese depois da distinção. Seria este ready-made uma crinolina do século XIX, ou uma crinolina do século XIX seria o ready-made de Duchamp?

Pelo princípio do termo criado por Marcel Duchamp, ready-made é um tipo de objeto por ele inventado, que consiste em um ou mais artigos de uso cotidiano. Ao transformar qualquer objeto em obra de arte, o artista realiza uma crítica radical ao sistema da arte. (Vide enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais)

A crinolina é originalmente um tecido, feito de crina de cavalo, algodão e linho, usado para endurecer anáguas. No século XIX, o termo foi usado para descrever uma estrutura em forma de sino, em geral feita de aço, que substituía camadas de anáguas para sustentar uma saia. (Vide livro Cronologia da Moda de Maria Antonieta a Alexander McQueen, pág: 49)


Por todo o final do século XIX, a forma feminina continuou a ser moldada por arame ou enchimento. Embora a visão desta imagem me remeta à sensação de agonia, naquela época, a armação de aço foi relacionada a um relativo conforto, pois gerava um material mais leve, que era mais fácil de se mover.

Este meu despertar pela crinolina, levou-me a novíssima exposição La mécanique des dessous, une histoire indiscréte de la silhouette, de 5 de  julho de 2013 a 24 de novembro de 2013, no Musées des Arts Décoratifs, Paris.

A exposição explora os artifícios usados ​​por homens e mulheres do século XIV até os dias atuais, para moldarem suas silhuetas. De acordo com o museu, o projeto original pode ser visto como uma longa história de metamorfose do corpo submetido aos ditames de cada período histórico.

Se, ao longo da história da moda, as mudanças de formas e técnicas são refinadas, no século XIX, o design de peças mecânicas é recorrente:  mecanismos que têm limitado o corpo das mulheres e dos homens, a fim de obter tamanhos apertados, quadris ampliadas, ou achatam os seios e às vezes quadris arredondados.

Todas estas peças se relacionam com o sentido de esconder formas e induzir a outras. São mecanismos que escondem segredos/sagrados.  


 

A mesma associação se faz no que tange ao valor das garrafas como utensílio: abriga conteúdo tão volátil quanto precioso, pois seu valor é metonímico, procede de seu conteúdo, e são as garrafas as únicas capazes de conter, porque, ao contrário de todos os demais vasos, a garrafa é tampada, hermética.

Mas quando colocada em um escorredor, as garrafas se tornam vasos. Desprendidas de tampas, os segredos são reveladas, e neste sentido eu já não sei mais quando acaba a crinolina e começa o ready-made de Duchamp.

Beijos,

Luisa Mendes

 

Por falar em Moda

Este ano, ganhei vários presentes valiosos no que se refere à pesquisa de moda. Hilal Sami Hilal me presenteou com a coleção de revistas de sua mãe, uma série que contempla edições da Carnet de Mode, Biancheria di Elegantissima e Burda, todas da década de 70. Mais recentemente, ganhei da Lara Felipe moldes de vestidos de noiva/madrinha, e vestidos para “misses and women´s” também da década de 70. Só tenho que agradecer pelo carinho em poder pesquisar nestas preciosas fontes .

Semana passada, lendo uma das revistas, encontrei uma folha destacada que parece ser um texto da editora da revista Claudia Moda, Maria da Penha Bueno de Moraes, sobre o outono de 1987.

De fato, este texto sobre as tendências outono 87 é um reflexo da sociedade da época e concomitantemente sua beleza vista pelos olhos de Maria da Penha, leia-se revista Cláudia Modas.

Algumas transgressões são permitidas, especialmente às mais jovens (de idade ou de espírito), como a fantasia da mulher-flor ou da mulher-boneca, referenciadas pela saia balonê.

Se compreendermos que a beleza é uma criação cultural e seu significado ganha novos formatos na medida em que relacionamos espaço/tempo, acredito que este editorial cairia muito bem à exposição La belleza, una búsqueda sin fin, aberta esta manhã no Museu da Evolução Humana, na cidade de Burgos/ Espanha:

Para muchos científicos el sentido de la belleza está relacionado con el pensamiento simbólico y la auto consciencia, lo que nos permite sumergirnos en los inicios de la humanidad y propiciar una reflexión sobre la capacidad simbólica de nuestra especie y las distintas formas de representación.  La Belleza, una búsqueda sin fin.

La muestra realiza un recorrido científico y cultural que permite reflexionar sobre el concepto de la belleza desde sus inicios hasta nuestros días e incluso adelantar cómo será la belleza del futuro. La exposición se divide en los siguientes ámbitos: ‘La naturaleza de la belleza’, ‘ Fascinación por la belleza’, ‘Generación de la toilette’, ‘Belleza, poder y cotidianeidad’, ‘Luces, cámara, acción’ y ‘Belleza: Ciencia y  futuro’ y abarca iconos singulares representativos a lo largo de la historia como los bifaces fabricados por el Homo ergaster, los collares egipcios o las diademas romanas.

También hay un espacio para el uso de la cosmética y de los pigmentos singulares utilizados a lo largo de los años, hasta los monumentales estilos de peinado de la época de Enrique IV. En el siglo XIX llegaría la primera agua de colonia y a principios del siglo XX el primer tinte sintético del cabello. Todo ello está representado en la exposición, en la que también se adelanta cómo evolucionará el concepto de belleza en el futuro.

Fiquei curiosa para ver essa mostra. Para quem se interessar, segue link que contêm o folder da exposição, com informações sobre a história da beleza e sua relação com o cinema e o futuro:

http://issuu.com/museoevolucion/docs/folleto_belleza

http://pinterest.com/11meh/la-belleza-una-b%C3%BAsqueda-sin-fin/

…… mas estou aqui apenas divagando com estas descobertas recentes, e compartilhando com vocês.

Ahh, só para terminar, vocês conhecem Neil Harbisson?

Então, acabei de descobri-lo (sério, só hoje!)

e para concluir este post, neste exato instante, queria saber o que é “belo” pra ele.

E para você?

Beijos,

Luisa Mendes

O fim da teoria evolucionista. Será?

Cientistas, artistas e estilistas estão conectados, expandindo seus conhecimentos genéticos, modificando genes e incluindo proteína fluorescente na construção de suas poéticas.

Kong Il-keun, especialista em clonagem na Universidade Nacional de Gyeongsang, na Coréia do Sul, produziu três gatos da raça angorá turca com genes modificados para proteína fluorescente (RFP, na sigla em inglês). O experimento trata-se, na verdade, de um importante avanço para a medicina. (revista IstoÉ)

É a primeira vez que conseguimos produzir gatos clonados com genes manipulados. Isso poderá ser aplicado em estudos com células-tronco e no tratamento de doenças genéticas,diz Il-keun.

Segundo ele, os gatos têm cerca de 250 tipos de doenças que também afetam o homem. Assim como os bichanos da Coréia do Sul, outros animais vêm tendo os seus genes manipulados para auxiliar a ciência na luta pela melhoria da qualidade da vida humana. A experiência é tão fantástica que levou grandes especialistas, como o geneticista chinês Bruce Lahn, a decretar que a criação de animais em laboratório representa o fim da teoria evolucionista proposta por Charles Darwin no século XIX. Lahn diz que a era da evolução natural acabou. Entramos na era da manipulação das espécies.

Se é o fim da teoria evolucionista eu não sei, mas que a informação é uma espécie de vetor que permiti que se estabeleça um substrato comum, que perpassa a matéria física, a matéria viva e a máquina, disso tenho certeza. A partir da arte transgênica, isso é possível, graças à constituição da noção de informação, no qual se pode entender o objeto técnico, o ser vivo e o ser inanimado.

Em 2000, o artista Eduardo Kac realizou o trabalho denominado GFP Bunny. Trata-se da inclusão de uma proteína de medusa (Aequorea Victoria) em um DNA de uma coelhinha albina, tornando-a fluorescente em um ambiente com uma determinada iluminação (precisa-se de um tipo de luz azul).

Eu proponho o uso da engenharia genética para transferir gens sintéticos para micro organismos ou material genético de uma espécie para a outra com o objetivo de criar organismos vivos únicos e originais. A engenharia genética permite ao artista criar novas formas de vida animal e vegetal. A natureza deste tipo de arte se define não apenas pelo nascimento de uma nova planta ou animal, mas pela qualidade da relação que se estabelece entre o artista, o público e o organismo transgênico. Trabalhos de arte transgênica serão levados pelo público para casa para serem plantados no jardim ou criados como animais domésticos. Não pode existir arte transgênica sem um firme compromisso e responsabilidade com a nova forma de vida criada. Diz Eduardo Kac

Já Universidade de Tóquio, o cientista Takashi Sakudoh manipulou os genes do bicho da seda para que eles produzissem fios vermelhos, amarelos e verdes – cores que, naturalmente, não produzem.

As cores da seda resultam de pigmentos naturais, absorvidos quando os bichos comem as folhas de amoreira. Por isso as cores naturais são pouco vibrantes e padronizadas”, diz Sakudoh.

Os cientistas japoneses observaram que, nos bichos-da-seda que produzem seda branca, o “sangue amarelo” ou gene Y sofre mutação: um segmento de DNA é apagado. O gene Y permite aos bichos da seda extrair carotenóides (pigmentos orgânicos que ocorrem naturalmente nas plantas), compostos da cor amarela, das folhas da amoreira.

Os insetos com mutação produziam uma forma não-funcional da proteína de carotenóide CBP, conhecida por ajudar a captar o pigmento. Usando técnicas de engenharia genética, os cientistas introduziram genes Y imaculados nos insetos mutantes.

Os bichos-da-seda manipulados produziram CBP e casulos de cor amarela, que se revelou mais forte depois de vários cruzamentos. Segundo os autores deste estudo, publicado nas atas da Academia Nacional de Ciência dos Estados Unidos, a seda poderá ser produzida em cor-de-carne e num tom avermelhado.

A designer Yumi Katsura desenvolveu vestidos de noiva utilizando esta seda específica. Com duração de até dois anos, o efeito surge quando o vestido é exposto a fontes de luz ultravioleta, capazes de fazer o modelo brilhar em tons de vermelho, laranja e verde.

Talvez Darwin reprovasse todas essas experiências, mas essa é a escada da vida. Ou seja: a evolução das espécies cedeu lugar à manipulação dos genes. Também as teses evoluem. (revista IstoÉ)

Será?

Se essa proteína fluorescente age como um raio – feixe de luz – há de se considerar que para os hindus o raio gera e destrói, ao mesmo tempo, ele é vida e é morte.

Beijos,

Luisa Mendes

O relâmpago da semana #26.06.2013

Semana passada, a Zipper Galeria, em São Paulo, reuniu em uma mostra intitulada Bem-vindos, trabalhos dos seis novos artistas que integram o grupo representado pela galeria: Ricardo Rendon, Rodrigo Oliveira, Daniel Escobar, Marcelo Amorim, Camille Kashani e Adriana Duque.

Confesso que não conhecia a Zipper, mas foi uma imagem do trabalho da Adriana Duque,  que conduziu o meu olhar para a reportagem que falava sobre a exposição.

As crianças fotografadas por Adriana Duque são personagens de uma cena teatral, uma quase-pintura, que desafia a ideia comum de que a fotografia é um documento inquestionável. Os cenários são construídos, a luz é calculada, as roupas são confeccionadas especialmente para a foto, e os olhos azuis das crianças são adicionados na pós-produção digital. No entanto, nos encantam pela mágica da verossimilhança, por serem imagens que poderiam ser, mesmo que saibamos que não são, fieis a algum real.

A suspensão da descrença, esse estado de deixar-se enganar voluntariamente, pelo prazer que o auto-engano proporciona, é vital no teatro e no cinema. Suspendemos o racional, entramos na brincadeira da obra, acreditamos que seria possível. Nos tempos pós-modernos, já nem sabemos mais quando estamos suspendendo a descrença e quando estamos sendo enganados. Os meios de distribuição de imagens nos bombardeiam com rostos e corpos impossíveis, cenários de sonhos, exemplos de felicidade plena, fazendo-nos tomar por naturalismo o que deveria ser claramente entendido como maneirismo.

Adriana Duque exacerba a manipulação de nossa crença perante a imagem. Suas lindas crianças vestem-se como pequenos monarcas, reinam em um cenário de veludo e brocados, adornam-se com uma coroa que se parece com um fone de ouvido, trazendo-as para a contemporaneidade apesar da atmosfera barroca.

Ao citar o século 17 nos contrastes de claro e escuro e na rica ornamentação das vestes e mobílias, Duque nos coloca também em contato com a história da arte latino-americana, que violentamente viu a arte nativa ser substituída pela arte então em vigor na Espanha. As crianças das fotografias podem ser um retrato de uma arte ainda na infância, que tenta crescer mas mantém-se ligada a um começo artificialmente barroco, que a criança traveste sem questionar, com fones de ouvido que abafam qualquer som crítico, e as mantém olhando para a câmera, sem que vejam, ao fundo, o interior genuíno, simples, de uma casa real.

Paula Braga, 2013

Não é a primeira vez que comento neste blog sobre o uso de headphones como um elemento do vestuário.

Neste caso, como um “abafador do som crítico”.

Mas não são os headphones, os cenários construídos, a luz calculada ou as roupas confeccionadas especialmente para o trabalho que me encantaram. Foram as encenações reais da paisagem social, seja na série Niños BarrocosDe cuento en cuento ou arquetipos domésticos.

La artista Adriana Duque practica un manierismo fotográfico que explora realidades escenificadas del paisaje social. Sus “cuadros” fotográficos son una puesta en escena de su propia inspiración, cuyo denominador común está en los encuentros y contrastes entre la alta cultura occidental y sus mitos con la distopía espacial y social de su país. La imagen fotográfica de su trabajo hace referencia a la pintura, al teatro, a la literatura y al cine. A través de ella se percibe el silencio de la pintura, la luz del cine, la inmediatez del teatro y la superficialidad de la imagen publicitaria; son performances ficticios escenificados para la cámara y construidos posteriormente en el computador, que crean un mundo claustrofóbico y hermético de ilusión y extrañamiento. 

Carlos E. Betancourt

Este blog é um espécie de fertilizante para o meu trabalho. Tudo que relampeja em mim, ganha espaço aqui. Como o fogo celeste, de imensa potência e assustadora rapidez, pode ser benéfico ou nefasto, mas vai saber…. só com o tempo.

Esta semana, Adriana Duque é o meu relâmpago.

Beijos,

Luisa Mendes

 

A teoria das nuvens

Às vezes, até pensa, mas sem dizer a ninguém, que o cérebro dos homens tem a forma das nuvens, e assim as nuvens são como a sede do pensamento do céu. Às vezes, Goethe até sonha que o próprio pensamento se desenvolve não, como dizem alguns, à maneira de um edifício de pedras, mas como essas arborescências nebulosas que tanto admira, nos céus sempre renovados de Weimar. Às vezes, mesmo assim, permanece paralisado, assustado com suas instituições malucas; abstém-se de confiá-las à pluma e ao papel; muito menos ao tipógrafo. Esses pensamentos são suas prostitutas.

Trecho do livro A Teoria das Nuvens, de Stéphane Audeguy.

Hoje, estou me sentindo como Goethe.

Beijos, Luisa Mendes

Não é ABRACADABRA

ABRACADABRA

ABRACADABR

ABRACADAB

ABRACAD

ABRAC

ABRA

ABR

AB

A

Esta fórmula foi utilizada durante toda a idade média tal como amuletos, talismãs e pentáculos. Desenhada como um funil, correndo enviesadas da parte alta alargada para a parte baixa que se estreita, formam as linhas de força de um poderoso turbilhão. Acreditava-se que quando utilizada, colocava o homem em harmonia com as leis misteriosas que regem o mundo, e em relação com poderes superiores.

Hoje, o que coloca o homem em um solo fértil e conectado com essas diversas leis, são as articulações que fazemos, com nós mesmos e com o outro.

A articulação é um dos símbolos da comunicação, o caminho através do qual a vida se manifesta e passa. Dicionário de símbolos

Se pensarmos pelo prisma do Fio de Prumo, importante elemento da maçonaria, que na maioria das vezes é designado pela palavra perpendicular, esta articulação é a flexível representação da verticalidade.

Pensando no contexto dos vestíveis, ando muito encantada com as “novas” possibilidades da verticalidade, ou diria, ascensão de novas técnicas de se fazer roupas e acessórios: uso de  impressora 3d que imprime desenvolvimentos em TPU.

TPU é um Poliuretano Termoplástico que apresenta em suas propriedades: elasticidade, transparência e resistência à óleos, graxas e abrasão.  É o material utilizado na composição de tacos de golfe.

Já na indústria da Moda, o TPU não é tão novo assim. Na coleção Blindados de Luiza, verão 2011 da marca Luiza Barcelos, saltos foram feitos utilizando este material. Só não foram produzidos por meio de uma impressora 3d, o que hoje seria possível. Processo que vivenciei de perto, pois neste momento eu era assistente de estilo da marca.

O que percorremos e produzimos não é direcionado por nenhum ABRACADABRA, e sim por pesquisas, testes e o constante exercício da escuta, pois às vezes a matéria prima está ao nosso alcance e não enxergamos.

Sobre a impressora 3d, não acredito que esta tecnologia vá eliminar o fazer manual.  A preciosidade e enredos narrados pela mão de uma costureira é particular à este ofício. Ao mesmo tempo que novas possibilidades podem se somar aos nossos costumes.

De todo modo, leio o caminhar em conjunto dos designers e cientistas, como o conceito do Fio de Prumo: a soma de sentidos que permite agir em função de realidades às vezes invisíveis para um só.

Beijos,

Luisa Mendes

 

O universo invisível da nanotecnologia

Em 1964, o arquiteto Britânico Ron Herron apresentou em um artigo de arquitetura o que chamou de THE WALKING CITY.  Eram edifícios com estruturas robóticas móveis, e com inteligência própria, que poderiam se movimentar livremente, rodando o mundo. Várias “walking cities” poderiam se conectar formando “walking metropolises”. Com o intuito de homenagear o arquiteto Ron Herron, em 2006, a designer de moda Ying Gao criou projeto homônimo com três vestidos interativos: cotton, nylon e dispositivos eletrônicos.

O ar é o elemento fundamental do projeto de Gao. Estes vestidos interativos jogam com a percepção do público: o fluido movimento do ato de respirar é simulado pelo uso de sensores e um mecanismo de pneumática (aplicação de gás sob pressão para produzir movimento mecânico), que semea diretamente no nylon e no cotton, tomando uma dimensão lúdica através de sua capacidade inflável.  Estas peças são mais difíceis de entender do que vestidos convencionais, quase enganando o público para enxergá-los da forma que eles realmente são.

walking city, interactive dress 1 from ying gao on Vimeo.walking city, interactive dress 2 from ying gao on Vimeo.walking city, interactive dress 3 from ying gao on Vimeo.

Luz, imaterial, mudança e poética, este é o conceito das peças infláveis que dão vida às roupas, com seus movimentos mecânicos dando a impressão de que eles são controlados por um corpo. Ying Gao

De fato, o universo invisível da nanotecnologia, através de uma apresentação poética e metafórica têm impactado a cultura e a consciência humana, vide projetos já relatados neste blog: The Aphrodite e Catalytic Clothing. Diante desse substrato e de outros trabalhos de nanociência, acredito que a moda pode caminhar no sentido de problematizar e explorar novas matrizes que há muito tempo já não é um domínio exclusivo da ficção, tendendo a cada vez mais ser uma nova linguagem de expressão, de agregação de sentidos e de sensibilidade. 

Beijos,

Luisa Mendes  

 

Knotted tassels: funcionalidade e ornamento

Semana passada, participei de um curso com Katia Johansen, conservadora textil e curadora do Royal Danish Collections, sobre Museologia da Moda, Instituto Zuzu Angel. Johansen falou um pouco sobre a indumentária na Dinamarca, como eles reconstroem e preservam as peças com o intuito de pesquisar o seu processo.

Katia explicou sobre os “Knotted tassels”- adorno, característico do século XVII, usado no pescoço cujo acabamento final era feito por nó – e mostrou como eles foram reproduzidos e continuam presentes, fazendo um paralelo com os headphones atuais.

este slide foi apresentado por Katia Johansen

Confesso que fiquei apaixonada por esta aproximação e quando retornei do curso, fui em busca no meu arquivo de dados, de referências e imagens que validam o uso de headphones como um elemento do vestuário: unindo funcionalidade e ornamento.

Os “Knotted tassels”, assim como os headphones, apresentam aspecto de uma corda. Suas extremidades agem como alfa e ômega, princípio e fim.

Não é de se estranhar que os “tassels” adornam justamente o pescoço: local do corpo humano em que se localiza a alma animal do homem, que condiciona o seu temperamento. É a partir desta perspectiva que os índios guaranis apapocuvas do Brasil, transpõem para o pescoço a comunicação entre a alma e o corpo.

Visando ilustrar este aspecto, digo que se os “Knotted tassels” atribuíram novos sentidos aos headphones, hoje eles abrigam um elemento agregador ao adorno: a música.

Para Boécio, a música rege o homem e o apreende – supõe um acordo entre alma e corpo.

Ei-la que se aproxima da orelha,

Como se fosse falar, beijando

Seu querido amante,

É a corda: esticada no arco, ela vibra

Como uma donzela, salvadora, na batalha.

( Rig-Veda, 6, 75)

 

Beijos,

Luisa Mendes

Multiplicidade infinita

Os Khmers, grupo étnico majoritário do atual estado do Camboja, acreditavam que os peixes eram impuros por mergulhar nas águas mais contaminadas do mundo subterrâneo.

O hagfish, também conhecido como peixe-bruxa, é um destes peixes que nadam em águas muito profundas, com baixa visibilidade, sempre procurando por restos de baleias mortas.

No contexto simbólico dos Khmers, o Hagfish é um peixe impuro.

Longe deste cenário, na Universidade de Guelph/Canadá, cientistas começam a olhar com mais atenção para estes peixes e percebem nos hagfish, potencial para gerar fonte natural e renovável para a produção de tecidos. Esta leitura se deve às substâncias contidas no muco produzido pelo peixe-bruxa em situações de autodefesa.

Quando o hagfish se sente ameaçado, eles disparam na água do mar uma substância leitosa que se expande, criando grande quantidade de um muco translúcido, composto por fibras extremamente fortes e elásticas. Estas fibras quando secas, se tornam sedosas.

No momento em que um tubarão morde um peixe-bruxa, sua boca e guelras são rapidamente cobertas pelo muco e imediatamente desistem do ataque para não morrer asfixiado.


Devido a sua composição e aspecto elástico e sedoso, pesquisadores acreditam que o muco do hagfish pode ser transformado em roupas esportivas ou, ainda, em coletes de proteção contra armas.
Esta pesquisa está em andamento, cientistas esperam reproduzir artificialmente as proteínas que são encontradas no muco do hagfish. A meu ver, será um avanço encontrar alternativas para substituir as fibras sintéticas que são produzidas por meio de fonte não renovável, como o petróleo.

Desculpem os Khmers, mas como acredito no simbolismo do peixe como nascimento ou restauração cíclica, nesta configuração, o peixe-bruxa é a multiplicidade e diversidade infinita do universo sensível, convertida em realidade tangível.

Estabelecida nesta perspectiva, eu aguardo novos resultados com o intuito de testar e usar esta matéria prima em muitas produções.

Beijos,

Luisa Mendes

Potencial de sentido

Durante o processo de criação de peças do vestuário, a percepção de uma nova ordem e de novas relações me direcionam sempre para as costas.  Isso mesmo, começo sempre pela parte de trás da roupa, pela coluna vertebral.

Lendo alguns textos de Flávio de Carvalho publicados no Diário de São Paulo no ano de 1956, na sua coluna “Casa, homem, paisagem”, começo a perceber um sentido nesta minha ordem de criação.

Para Flávio, tudo se inicia por meio do desejo de equilíbrio:

é só pensarmos em Barylamba, mamífero que nasceu da árvore-refúgio há 75 milhões de anos no Paleoceno. Após o desaparecimento dos terríveis dinossauros, a fim de tomar conta da terra junto com outros mamíferos nas mesmas condições, Barylamba desenvolve uma longa cauda, que funciona como um tripé: contrapeso para o equilíbrio e fornecendo segurança na locomoção.

Esta busca de equilíbrio é pertinente na composição do traje e apesar de ter perdido a sua cauda há cerca de cem milhões de anos atrás, o homem, ainda hoje, busca um substituto de pano.

A imperatriz Josefina com sua longa cauda ajudava a equilibrar a insegurança de Napoleão, palavras de Flávio de Carvalho.

A cauda, apesar de não visível externamente, se encontra de fato presente no homem e no macaco antropomórfico e é construída pelos mesmos moldes em ambos. Darwin, Descent of Man.

De fato, a cauda se manifesta na indumentária em vários momentos históricos e se visualizarmos os desfiles atuais, esta mimetização se perpetua.

Tal como interpreta Flávio de Carvalho e eu a interpreto, a “cauda” é o nosso tripé, equilíbrio, eixo, coluna vertebral, no sentido lato do termo. Também entendo de maneira dialógica, que ao sabor da evolução humana, não há maneira mais absoluta do que o espírito da roupa: ela contém um potencial de sentido.

Beijos,

Luisa Mendes