O que me faz escrever

By luisamendes

A última vez que pensei sobre o futuro foi quando eu tinha dez anos. Eu estava no carro com minha avó, que dirigia uma Cadillac. Ouvimos uma voz no rádio anunciando que o mundo iria acabar dentro de um ano. Era um programa religioso. O cara, um pastor sulista, parecia bastante convincente. Então perguntei à minha avó se aquilo era mesmo verdade. Ela disse: “Vamos rezar”. Ela estacionou o carro e começamos a rezar! Eu me lembro muito bem disso porque nós paramos perto de um daqueles motéis de beira de estrada que eram populares no Meio-Oeste nos anos 50. Ficamos o ano inteiro rezando, lendo a bíblia e avisando todos os parentes e amigos sobre O FIM. No dia previsto, um ano depois, nada aconteceu. Fiquei desapontada. Essa foi a última vez que tentei prever ou acreditar em qualquer coisa que alguém tivesse a dizer sobre o futuro.

Entrevista concedida por Laurie Anderson à Rodrigo Garcia Lopes.

Laurie, também comenta sobre como temos a impressão de que as coisas no futuro, se não vão ser melhores, pelo menos serão mais novas e mais “ordeiras”. E que precisamos ficar atentos a esses termos, e o que eles significam.

Pensar no presente e futuro é um pouco complicado, a meu ver. Não sei como delimitar o que já não é mais presente, só penso como um movimento uniforme, que induz a uma rotação.

É comparável, sob este aspecto, ao simbolismo Lunar – as filhas da Necessidade – as Parcas, cantam como sereias, fazendo girar os fusos: Láquesis (o passado), o Cloto (o presente), Átropos (o futuro). Elas regulam a vida de todo ser vivo com o auxílio de um fio; que a primeira fia, a outra enrola e a terceira corta.

Penso que talvez este seja o impulso que me faz escrever neste blog: registrar o que no “presente” momento me encanta no universo e poder no “futuro” desmentir ou afirmar conceitos que eu havia pré- estabelecido.

Tenho aprendido a usar a escrita como forma de cultivar o meu aprendizado, o olhar sobre as coisas, aquilo que me toca, seduz, encanta, incomoda, como uma maneira de exercitar a minha consciência e os limites impostos por ela. De toda maneira, isso se espelha no meu trabalho.

Mais do que pretender dizer o sentido, trata-se de estabelecer relações de vizinhanças ou deslocamentos que é dado de pronto. Assim como nos diz Barnett Newman:

Eu sempre achei que meu trabalho, num certo sentido, é parte desse processo e que, eventualmente, o próprio objetivo artístico irá desaparecer, se tornará bastante ordinário, ou irá virar apenas uma infinita corrente de palavras.

Fotos da coleção Pollock and Gehry (fotógrafas Ignez a Márcia Capovilla)

Beijos,

Luisa Mendes

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