CIAJG

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Carta para 2018

Começo a escrever, mas o frio é tanto que preciso levantar para pegar outra camada de roupa. Vou até o guarda-roupa e pego a primeira blusa de frio que vejo.
Visto rapidamente, e quando dou por mim estou com um cashmere cuja estampa é a Docinho, aquela personagem do desenho animado “Meninas Super Poderosas” (The Powerpuff Girls).
Docinho é a mais bravinha das três, bem marrenta, porém é bastante destemida, leal e está sempre disposta a lutar.
É a única das três irmãs que não tem um grande poder especial, em contrapartida, ela é capaz de criar tornados que podem chegar ao espaço.
Pois, chegar ao espaço não é mau, hein?!
Mas precisar de um tornado para tal é incompreensível. Causa muitos estragos por onde passa, deixa muitos feridos, é violento… E, de violência, basta!
Portanto, para 2018, para a Super Lua, para o Super Novo Ciclo de cada um de vocês, desejo que, como a Docinho, possamos criar pontes para alcançar os nossos espaços de sonhos, de representação, de desejo, de fé, de afeto e de ALTERIDADE.
Com agitação, muito movimento, muita dedicação, comprometimento, mas com atenção para que esta força não agrida o espaço do outro.
Que estejamos muito mais interessados na ação do Coletivo.

E os planos para a Moda?

No final de 2017 vi, na Plataforma das Artes – Guimarães/PT, a exposição da artista Mumtazz, denominada HILARITAS, curadoria de Nuno Faria.

Robert Anton Wilson conta que descobriu a palavra HILARITAS nos Cantos de Ezra Pound, que citava o filósofo bizantino Gemisto Pletão. Dizia este: “podemos reconhecer os deuses mesmo na sua forma humana pelas suas magníficas Hilaritas”. Robert observa que no tempo de Platão, hilaritas significava “alegria, bom humor, diríamos, mas não no sentido de estar sempre a brincar. Nuno Faria

Na mostra, a obra BLUE DRESS DRIPPING (2012), consiste em uma bacia cheia de água, um vestido azul celeste, e uma espécie de roldana que, ao ser movimentada pelo visitante, permite imergir e emergir o respectivo vestido na água.

BLUE DRESS DRIPPING. MUMTAZZ

BLUE DRESS DRIPPING. MUMTAZZ

No momento em que o vestido é molhado, as fibras se enchem de água, e o vestido se expande, se alonga, ou como a artista diz…

e vai crescendo..

Se eu fosse dedicar um espaço para falar sobre a Tecnologia Têxtil, poderia dizer que este vestido não possui um acabamento que mimetiza a aranha, impermeável, ou nem mesmo saliências cumeadas por uma camada de cera, que, como a flor de lótus, repele a água, hidrofóbico.
Não, este vestido azul celeste não possui nenhuma mega tecnologia de produtos emergentes. Pelo contrário, como Mumtazz mesma diz, eu gosto é da precariedade. Mas não é a precariedade do inseguro, do frágil. São as possibilidades e a abundância de caminhos que podem surgir, também, do imprevisível.
O vestido em questão é feito de lã (WO), a mais higroscópica de todas as fibras. O quer dizer que ela absorve uma porcentagem considerável de seu peso em água.
Isto, somado a ótima elasticidade, resiliência e ondulação da fibra, permite com que o vestido assuma uma nova dimensão, superior ao início da exposição.

Nossa, Luisa, que volta você deu!
Não, não… É o que de fato desejo para a Moda em 2018.
Que encontremos as Hilaritas na imprevisibilidade dos processos. Para que ela deixe de ser tão calculada e estática.
Que ela reconheça e identifique as características de sua matéria, como a elasticidade.
Para que, quando comprimida, seja capaz de retomar sua forma.
E que, como o BLUE DRESS DRIPPING, possa estar em constante crescimento, a partir de sua imersão na água.
Claro!
Porque se estamos na era de Aquário, é importante deixar molhar!