Crinolina

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Mais leve

No mesmo instante em que revi a imagem da obra “Escorredor de garrafas” ,  ready-made de Marcel Duchamp, 1914, a mesma se prendeu em minha mente provocando uma confluência com as crinolinas do final do século XIX.

O estudo da confluência se prende a conjunção e coincidência dos opostos. Diferenciação no que tange a utilidade de cada qual quando pensamos nos mesmos como objeto e acessório vestível, respectivamente. Mas, na minha cabeça, ocorre a volta à unidade depois da separação,  síntese depois da distinção. Seria este ready-made uma crinolina do século XIX, ou uma crinolina do século XIX seria o ready-made de Duchamp?

Pelo princípio do termo criado por Marcel Duchamp, ready-made é um tipo de objeto por ele inventado, que consiste em um ou mais artigos de uso cotidiano. Ao transformar qualquer objeto em obra de arte, o artista realiza uma crítica radical ao sistema da arte. (Vide enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais)

A crinolina é originalmente um tecido, feito de crina de cavalo, algodão e linho, usado para endurecer anáguas. No século XIX, o termo foi usado para descrever uma estrutura em forma de sino, em geral feita de aço, que substituía camadas de anáguas para sustentar uma saia. (Vide livro Cronologia da Moda de Maria Antonieta a Alexander McQueen, pág: 49)


Por todo o final do século XIX, a forma feminina continuou a ser moldada por arame ou enchimento. Embora a visão desta imagem me remeta à sensação de agonia, naquela época, a armação de aço foi relacionada a um relativo conforto, pois gerava um material mais leve, que era mais fácil de se mover.

Este meu despertar pela crinolina, levou-me a novíssima exposição La mécanique des dessous, une histoire indiscréte de la silhouette, de 5 de  julho de 2013 a 24 de novembro de 2013, no Musées des Arts Décoratifs, Paris.

A exposição explora os artifícios usados ​​por homens e mulheres do século XIV até os dias atuais, para moldarem suas silhuetas. De acordo com o museu, o projeto original pode ser visto como uma longa história de metamorfose do corpo submetido aos ditames de cada período histórico.

Se, ao longo da história da moda, as mudanças de formas e técnicas são refinadas, no século XIX, o design de peças mecânicas é recorrente:  mecanismos que têm limitado o corpo das mulheres e dos homens, a fim de obter tamanhos apertados, quadris ampliadas, ou achatam os seios e às vezes quadris arredondados.

Todas estas peças se relacionam com o sentido de esconder formas e induzir a outras. São mecanismos que escondem segredos/sagrados.  


 

A mesma associação se faz no que tange ao valor das garrafas como utensílio: abriga conteúdo tão volátil quanto precioso, pois seu valor é metonímico, procede de seu conteúdo, e são as garrafas as únicas capazes de conter, porque, ao contrário de todos os demais vasos, a garrafa é tampada, hermética.

Mas quando colocada em um escorredor, as garrafas se tornam vasos. Desprendidas de tampas, os segredos são reveladas, e neste sentido eu já não sei mais quando acaba a crinolina e começa o ready-made de Duchamp.

Beijos,

Luisa Mendes